Houve um tempo em que eu não sabia amar, não tinha amigos, apenas um coração gelado, olhos inertes, e a alma coberta pelas trevas dos amores não correspondidos do passado…
Eu era infeliz, andava nas sombras, passava minhas noites desafiando a mim mesmo a continuar vivo no outro dia, eu me detestava e por isso me testava, torcendo pelo meu próprio fracasso;
Maldizia os casais apaixonados, execrava a Afrodite, pretendia matar a Vênus e adoraria depenar Cupido…
Eu era um perdido num mundo que não sabe pra onde vai…
Tinha um ar silente, de alguém que nem sente quando a lagrima cai…
Já não suportava viver, queria gritar, ou correr, pra não mais sangrar, sofrer, essa vida fria, sem razão; precisava de um amigo, uma mão, que me desse abrigo, atenção, que me entendesse, escutasse, que ficasse comigo, e me amasse, e do meu peito ferido, cuidasse, aparando as lágrimas, e as dores, trocando as mágoas por flores, enchendo minha vida, de cores, meus olhos e ouvidos, de amores…
Minha filosofia era a misantropia, era avesso aos meus semelhantes que, não eram iguais a mim.
Vivia uma vida soturna, lúgubre, taciturna, triste…
Mas eis que um dia, numa noite quente em que eu lutava contra a tristeza, você apareceu, vestida de preto, mas com uma luz alva saindo dos olhos…
E eu, que me achava insensível, fui tocado por aquelas palavras, por aquelas mãos, por aqueles lábios doces que me fizeram reviver, sentir, amar…
Oh, Belos lábios, vós que tiram as palavras desse poeta insano que agora ama, permita que eu os beije outra vez;
Oh, belos olhos, vós que cegam com teu brilho obscuro, permita meu olhar fixar no teu por mais um instante;
Oh, doce dama, tu que tens olhos e lábios dignos de adoração e reverência, permita que mais uma vez, este jovem e até então incrédulo pagão, sinta o sabor do amor, o gosto da paixão, antes que o dia acabe, e eu me sufoque com o odor infecto da saudade …


