Posts de Dezembro, 2007

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Inverno de 2003

20, Dezembro 2007

Você é como o beijo de uma flor num dia frio, e isto é demais para um homem confessar, mas, você sabe, que quando chove, e esta escuro, meus olhos se tornam maiores e eu posso ver sua luz…

 

Sim, eu fui beijado por uma flor neste inverno, e foi como se o beijo fosse seu, ainda que dado para mim, mas de fato, talvez fosse, e ainda que eu não acredite muito nisso, foi como se de alguma forma fantástica nós estivéssemos cósmicamente unidos… E talvez aquela flor fosse o simbolo dessa estranha união, ou talvez não fosse nada disso, e aquele beijo fosse o beijo da morte, da traição, igual àquele dado por Judas a Cristo.

E eis que depois de tal beijo, vi-me debruçado sobre o parapeito duma janela, observando a chuva, admirando a beleza de cada sopro de vento, de cada gota que caia, e sentindo na face pingos de lágrimas rolarem e se misturarem caindo com a chuva…

 

Era a primeira vez que amava, e talvez por isso, depois dos primeiros instantes de amor, tudo parecesse novo, talvez por esse motivo a chuva, antes ignorada, agora era admirada, ela agora parecia tão atraente, tão bela…

Mas por outro lado, não era a primeira vez que chorava, e talvez por isso a chuva se mostrasse tão triste, tão alheia ao mundo e tão ligada a mim, pelas gotas opostas que derramávamos, pois enquanto as dela eram doces como um sorriso e frias como a solidão, as minhas eram quentes como o amor (verdadeiro), mas salobras como só uma lágrima sabe ser…

 

Uma união de nossas lágrimas daria origem ao bem e ao mal, daria origem a uma gota quente e doce, e talvez ela tivesse um nome bonito, como felicidade, já a outra, seria fria e salgada, seria rejeitada, como se fosse má por opção, como se a outra, com o passar do tempo, não acabasse tão fria e salgada quanto ela, e talvez seu nome fosse dor…

 

E é incrivel como em um beijo possa conter a ambas.

 

E aquele beijo me deixou o sinal dum espinho no rosto, e a marca dum “amor” no peito… E ambas sangram e doem de formas iguais, exceto que para o rosto, um anestésico resolva, mas para o peito, para o coração… Só exista o tempo como cura, ou veneno… Afinal, todos nós temos um coração envenenado… Contra nós, ou contra os outros, contra mim ou contra você, o veneno é sempre o mesmo, apenas o alvo e a forma de inoculação são diferentes, pois todo o resto, todo o ódio, é igual. É tudo igual.

 

Só a angústia é perfeita.

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Goth side

17, Dezembro 2007

Houve um tempo em que eu não sabia amar, não tinha amigos, apenas um coração gelado, olhos inertes, e a alma coberta pelas trevas dos amores não correspondidos do passado…

 

Eu era infeliz, andava nas sombras, passava minhas noites desafiando a mim mesmo a continuar vivo no outro dia, eu me detestava e por isso me testava, torcendo pelo meu próprio fracasso;

 

Maldizia os casais apaixonados, execrava a Afrodite, pretendia matar a Vênus e adoraria depenar Cupido…

 

Eu era um perdido num mundo que não sabe pra onde vai…

 

Tinha um ar silente, de alguém que nem sente quando a lagrima cai…

 

Já não suportava viver, queria gritar, ou correr, pra não mais sangrar, sofrer, essa vida fria, sem razão; precisava de um amigo, uma mão, que me desse abrigo, atenção, que me entendesse, escutasse, que ficasse comigo, e me amasse, e do meu peito ferido, cuidasse, aparando as lágrimas, e as dores, trocando as mágoas por flores, enchendo minha vida, de cores, meus olhos e ouvidos, de amores…

 

Minha filosofia era a misantropia, era avesso aos meus semelhantes que, não eram iguais a mim.

 

Vivia uma vida soturna, lúgubre, taciturna, triste… 

 

Mas eis que um dia, numa noite quente em que eu lutava contra a tristeza, você apareceu, vestida de preto, mas com uma luz alva saindo dos olhos…

E eu, que me achava insensível, fui tocado por aquelas palavras, por aquelas mãos, por aqueles lábios doces que me fizeram reviver, sentir, amar…

 

Oh, Belos lábios, vós que tiram as palavras desse poeta insano que agora ama, permita que eu os beije outra vez;

Oh, belos olhos, vós que cegam com teu brilho obscuro, permita  meu olhar fixar no teu por mais um instante;

Oh, doce dama, tu que tens olhos e lábios dignos de adoração e reverência, permita que mais uma vez, este jovem e até então incrédulo pagão, sinta o sabor do amor, o gosto da paixão, antes que o dia acabe, e eu me sufoque com o odor infecto da saudade …

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Etílico

13, Dezembro 2007

Um pingo de chuva goteja de meus olhos de sol, uma lágrima bela, perfeita, linda, triste, fria, salgada, única.

Um sorriso se desfaz em meus lábios ressequidos, tépidos, indiferentes, apáticos.

Nas paredes as figuras me observam indiscretas, insensíveis, curiosas, despreocupadas, intrigadas.

Na tela do computador um soneto de Augusto dos Anjos, nas caixas de som uma música suave, na cabeça as idéias soltas, presas, livres, conectadas, distantes, próximas, belas, más, suaves, estranhas, rudes, delicadas, bizarras.

Estou ficando louco, lúcido, alienado, brilhante, obscuro, insano, indecente… Mas eu acho que não é nada disso, por mais que possa parecer.

 

Mesmo assim, eu me sinto tão leve… E eu nem sei por quê.

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Suave…

8, Dezembro 2007

Olho pela janela e vejo a luz alva do sol vespertino, pela porta o ar circula livremente;

Uma brisa quente que posso sentir em minha nuca, me arrepiando tal qual fosse um daqueles beijos que só meu anjo sabe dar, e talvez até fosse, por que não, tal beijo…

Gosto de pensar que meu anjo me beija nessas brisas, que ela me afaga com a luz do sol, e que me envolve em seus braços com as gotas finas duma chuva suave…

 

Penso isso nas horas de tristeza, quando todo meu mundo parece desabar…

 

E quando sinto que meu anjo sofre, também peço à brisa, ao sol, à lua, e aos ventos que lhe mandem meus beijos, e sei que mesmo inconscientemente, ela pode sentir.

 

Seus olhos são tão bonitos…

 

O outono chega, preguiçosamente, tomando aos poucos o lugar que outrora pertencia ao verão, preparando-nos para o inverno.

 

Os cães vadios vagueiam pelas ruas da metrópole cinzenta, as pessoas, muito ocupadas, cuidam de suas vidas, os pássaros seguem seus destinos incertos, e eu continuo aqui, sentado diante do computador, inserindo dados na máquina, observando a tarde chegar de mansinho através do movimento da luz nas paredes…

 

Eu não queria estar aqui, eu queria estar lá, ali, mas não aqui, eu quero estar nos seus braços, e te ter nos meus… Sussurrar ao seu ouvido, bem baixinho, “Amo-vos…”, e adormecer envolto pelo som suave de sua respiração…