Você é como o beijo de uma flor num dia frio, e isto é demais para um homem confessar, mas, você sabe, que quando chove, e esta escuro, meus olhos se tornam maiores e eu posso ver sua luz…
Sim, eu fui beijado por uma flor neste inverno, e foi como se o beijo fosse seu, ainda que dado para mim, mas de fato, talvez fosse, e ainda que eu não acredite muito nisso, foi como se de alguma forma fantástica nós estivéssemos cósmicamente unidos… E talvez aquela flor fosse o simbolo dessa estranha união, ou talvez não fosse nada disso, e aquele beijo fosse o beijo da morte, da traição, igual àquele dado por Judas a Cristo.
E eis que depois de tal beijo, vi-me debruçado sobre o parapeito duma janela, observando a chuva, admirando a beleza de cada sopro de vento, de cada gota que caia, e sentindo na face pingos de lágrimas rolarem e se misturarem caindo com a chuva…
Era a primeira vez que amava, e talvez por isso, depois dos primeiros instantes de amor, tudo parecesse novo, talvez por esse motivo a chuva, antes ignorada, agora era admirada, ela agora parecia tão atraente, tão bela…
Mas por outro lado, não era a primeira vez que chorava, e talvez por isso a chuva se mostrasse tão triste, tão alheia ao mundo e tão ligada a mim, pelas gotas opostas que derramávamos, pois enquanto as dela eram doces como um sorriso e frias como a solidão, as minhas eram quentes como o amor (verdadeiro), mas salobras como só uma lágrima sabe ser…
Uma união de nossas lágrimas daria origem ao bem e ao mal, daria origem a uma gota quente e doce, e talvez ela tivesse um nome bonito, como felicidade, já a outra, seria fria e salgada, seria rejeitada, como se fosse má por opção, como se a outra, com o passar do tempo, não acabasse tão fria e salgada quanto ela, e talvez seu nome fosse dor…
E é incrivel como em um beijo possa conter a ambas.
E aquele beijo me deixou o sinal dum espinho no rosto, e a marca dum “amor” no peito… E ambas sangram e doem de formas iguais, exceto que para o rosto, um anestésico resolva, mas para o peito, para o coração… Só exista o tempo como cura, ou veneno… Afinal, todos nós temos um coração envenenado… Contra nós, ou contra os outros, contra mim ou contra você, o veneno é sempre o mesmo, apenas o alvo e a forma de inoculação são diferentes, pois todo o resto, todo o ódio, é igual. É tudo igual.
Só a angústia é perfeita.


