DON’T BRING MY PAIN BACK
Deus – eu acho – deu tudo aquilo que eu – idiota – podia querer: sexo, drogas, rock’n’roll, mulheres, uma vida bandida, minha consciência Inconsciente, uma bala perdida, um desejo ardente, uma mente poluída, um sorriso frio, indiferente, a alma roída e um grito sem vida, mas estridente…
Eu tinha tudo que Não podia se ter, mas o que eu podia – realmente queria – e no entanto não tinha, era você…
Então num ultimo gesto de piedade – ou talvez de pura maldade – Deus – ou o contrário – daria a única coisa que eu não queria; aquilo era – sua voz rouca dizia – o que esse otário – coitado – há muito tempo merecia…
E foi num suspiro seu – o ultimo gesto meu, de paixão, dor, ou até de autopunição, torpor – num longo momento doce de agonia vil, de negação e frio, beleza mórbida, solidão, tristeza atroz , oração, que o teu Deus ou o meu própio Eu, feroz – agora sádico, algoz – pôs me no escuro, a sós, arma na mão, sem voz;
Assim, com apenas uma bala, começo o jogo que vai me matar…
Gira-se o tambor, engatilha-se e…
Clac! Falhou, alivio? Não.
Outra vez, gira, fecha, engatilha… e dispara?
Não, droga!
A respiração acelera, tic, tac, tic, tac, tic, tac, tique nervoso, taquicardia…
Tem que ser agora…
Repete-se o ritual; gira, fecha, engatilha, atira…
Clac!Clac! Clac! Puxo o gatilho uma, duas, três vezes tentando acabar logo com essa tortura… Que se prolonga…
Puxo o gatilho outra vez, foda-se o velho ritual;
Clac!
Ouço agora, finalmente, um estrondo… Mas, na grama não há sangue e no meu corpo ainda há vida… O que houve?
Minhas roupas estão úmidas, mas é água, não sangue…
O barulho, foi um trovão, maldito…
Jogo a arma no chão, que, com a queda, dispara e acerta um corvo – coitado;
Esse era pra mim, se eu houvesse disparado, minha nossa, seria o fim…
Caio de joelhos, mãos na cabeça, lagrima nos olhos, e dor muita dor… No coração, que antes disso tudo eu nem sabia qual era sua utilidade, nem porque ,às vezes, eu o sentia pulsar no meu peito,
E então, eu choro, tremo, soluço, grito, me lembro que te amo, e sofro…
Merda, nem quando vou me matar levo a coisa a sério, putz eu sou mesmo doente!
Mas, havia ainda duas balas em meu bolso… Devo prosseguir?
Muitos pensamentos passavam em minha cabeça, até que você apareceu e… estendeu a mão pra mim…
E depois desse gesto que ninguém jamais havia me feito, olhou nos meus olhos e disse, enquanto segurava minhas mãos que, trêmulas, tentavam carregar a arma:
- Não chore mais, eu estou com você, tudo ficará bem agora…
E num abraço apertado, calou os gritos coléricos de minha mente, e acabou com toda a dor que eu sentia…
Com seu carinho, me fez sentir o homem mais feliz do mundo…
No entanto, tempo depois, esse pequeno castelo de cartas marcadas que era o seu amor por mim, veio abaixo, com apenas uma brisa…
E agora penso se não teria sido melhor ter usado as balas, uma para cada um de nós…
Mas como eu poderia saber?
Afinal, suas palavras, seus gestos, seu olhar, seu “amor”, tudo parecia ser tão sincero, tão real…
Há poucos poemas atrás, uma cigana – cujo nome se perdeu no tempo – disse num tom de profecia “só um grande amor pode te salvar” e eu, com os olhos vermelhos e pupilas dilatadas devido ao uso excessivo da solidão, acreditei – pobre diabo.
No entanto, um gótico depressivo me alertara, me dissera “Tu nunca amará, nem serás amado, tu estás condenado ao desterro e a solidão”, Mas, eu não dei ouvidos a ele;
Estúpido, maldito descrente dos conhecimentos das trevas, minha ingenuidade, minha crença divina me impediram de aceitar tal sina que, no fim de tudo, era meu destino, minha maldição…
Nobody loves no one…


